sexta-feira, dezembro 12, 2014

Sobre competitividade ou um post pessoal bem bobo

Sempre fui competitiva ponto. Não competitiva no estilo: quero te fuder, beijo. Não. Também nunca foi em relação a amizades e também a amores. Por muita sorte eu sempre fui rodeada de gente muito querida. Uns que ficaram, outros que partiram sem que precisasse uma corrida com outra pessoa pra disputar quem ganhou, posso dizer que na maioria das vezes sempre estive com quem quis estar sem que precisasse derrubar uma(um) concorrente, foi por mérito próprio e me sinto bastante privilegiada por isso. Por outro lado, no quesito esportes, concursos e lideranças, não teve mesmo jeito, eu sempre me meti no meio pra ganhar de quem fosse, mesmo que tenha perdido tantas vezes. Isso mesmo, nunca entrei "pra competir pq o que vale é participar", sempre entrei pra ganhar e sempre me frustrei muito quando isso não acontecia. 

Nunca vou esquecer quando Amanda tirou meu primeiro lugar na corrida nos jogos internos da escola. Minha falta de fôlego no final do trajeto me sufocava de tristeza por não ter corrido um tanto mais rápido que ela. Também recordo as vezes em que a equipe adversária ganhava no vôlei e eu ficava arrasada, parecia que tinha repetido de ano. O cenário mais trágico foi quando eu tinha nove anos. Era dia das crianças solidário em Aldeia organizado pela minha mãe, pai e alguns de seus amigos. Era um dia inteiro de folia bancado por eles com mais de 300 crianças carentes do bairro. Lanches, sacolinhas de doces e prêmios em concursos. Os prêmios eram coisinhas compradas no centro da cidade e outros eram brinquedos doados e repaginados. Eu, que não curtia muito boneca, sempre doava todas e, em instantes, elas se transformavam em outra coisa com roupinha nova e tudo mais. Um luxo. Bom, acontece que um dos concursos era de dança, em cima de um caminhão (imagine). E eu, que era amiga das meninas da comunidade, também participava com meu shortinho do tchan da tutti barretti verde água. A regra era simples: dançar ao som da música que tocar e vencer a que for mais aplaudida. Me remexi a lá Jennifer Beals em flashdance e fui a mais aplaudida. Desci do caminhão como quem sobe no palco do Oscar pra buscar o prêmio. Mamãe me recebia lá embaixo, aflita, dizendo: "carlinha, o prêmio é uma boneca que você mesma doou". Agora vai enfiar na cabeça de uma criança isso. Eu ganhei, poxa. Enfim, eu ganhei mas perdi. 

Essa ladainha toda é só pra dizer que, depois de tanto tempo sem esse sentimento de disputa, fui enfiada nele quase a pulso, mesmo fugindo disso há tantos anos: comecei a trabalhar em uma loja famosa onde os objetos e as meninas acabam sendo fontes de desejo das pessoas. Um negócio meio doido mas é. Não sei o que o mercham dessa marca fez de tão grande pra atingir isso em tão pouco tempo. Eles merecem parabéns e é seguro que essa disputa eles ganharam em disparado, a começar pelo cheiro. Sim, até o cheiro da loja é famoso e parece que faz as pessoas se sentirem leves e ricas ao sentirem, coisa de doido. Mas voltando ao assunto: dentro dessa loja há um negócio quase feio chamado "corrida". Corrida entre as vendedoras. Calma, ninguém coloca um tênis e sai correndo pelas lojas, mas disputamos entre a gente e entre as outras lojas pra ver quem vende mais. Um ranking. Quem vende mais ganha prêmios, prestígio, respeito e, óbvio, uma grana melhor. Eu, ariana que sou, me sinto bastante atraida por todas essas coisas e, em uma semana, me joguei nessa corrida como se não houvesse amanhã. Um dia da caça e outro do caçador. Somos 11 jogadoras (hehe mesmo) e uma delas é de um universo paralelo no quesito disputa e também sucesso. Se todo mundo alcança 1 ela já chegou em 10. 

Hoje, depois de exatamente uma semana na loja, fiquei no primeiro lugar do ranking e dei pulinhos de alegria, internos e externos também.

Primeiro lugar no ranking de vendas de uma loja. Avalie.

Uma coisa tão idiota e que aponta o quanto o ser humano é bobo e precisa de umas coisas bobas pra se sentir vivo, em atividade, em movimento. Me senti campeã do mundo contra a Argentina com uma das disputas mais fúteis e bestas a qual já participei. Agora que "consegui", ao menos por um dia e o ego já foi alisado (mais futilidade ainda), o negócio é parar, respirar e retornar ao foco inicial, pra que a corrida não vire uma coisa sem lógica e meu floral perca o sentido em uma de suas essências que tanto valorizo . Eu preciso competir nessa corrida, sim, mas é comigo mesma. E isso vale pra vida.

terça-feira, dezembro 09, 2014

No mesmo taxi

Eu queria ser a Leila Diniz pra ser amiga de todas as pessoas com as quais me relacionei amorosamente. E queria ainda que eles fossem amigos entre sí. Todo mundo, uma grande roda, um churrascão, piscininha e alegria, brindes e mais brindes à vida e aos encontros. Mas a verdade é que a gente sabe que não é assim, que não tem como ser tudo tão puramente leve e bem resolvido entre os ciclos, sobretudo quando se trata de fim. Isso de transformar o fim de uma coisa em início de outra não é tarefa fácil, ainda mais quando não depende só de uma parte, nesse caso, só de mim. Posso dizer que, apesar de não ser a Leila Diniz, meu saldo tá mais pra positivo que pra negativo, se a gente for avaliar que os fins costumam ser cheios de cortes, de porradas. No fim das contas, posso encher a boca pra dizer que um dos meus ex é hoje um dos grandes amigos que carrego no peito. Ok, podem dizer que já que ele hoje em dia é gay é fácil demais mas eu discordo, pois foi um dos finais de relacionamento mais alardados que já fiz parte. Cheio de dramas, de demoras pra se curar, de cartas gigantescas, de posts enormes e cheios de dor em fotolog, de noites sem dormir, de aulas de matemática matadas mesmo estando dentro da sala de aula, no meu mundo particular da dor de cotovelo que aquela djabo de olhos coloridos me deixou. Sem contar com o peso no ego de ter sido a única vez até hoje que acabaram comigo e não o contrário. Os outros, entre esse namoro e o último, nada além de cordialidade. Ou notícias através de postagens em facebook. Sem perda, sem ganho. Não brindamos juntos, mas não há o que se falar de mal.

Hoje em dia namoro alguém que é bastante querido pelo ex que é meu amigo e vice versa. Isso pra mim é uma vitoriazinha. Não dá pra fazer um churrascão mas já vale um espetinho. E meu atual namorado gostaria de ser próximo do meu último ex por uma questão de identificação. Morou na serra, gosta de cerveja, gostava de umas bandas estranhas quando jovenzinho, é do bem, tem coração bom e além de tudo tem alguns amigos em comum, o que atrapalha algumas vezes a logística nos encontros. Ou desencontros de caso pensado - pela outra parte, que não é a minha. Eu queria a todo custo ser amiga dele. Forcei isso durante um bom tempo e depois desisti. Vi que não adiantava isso de chamar pra aniversário, eventos, o que for, mesmo com nossos amigos em comum lá, se ele não se sentia confortável em estar no mesmo ambiente. O tempo passou e esse desconforto, que já não me cabe em mente a necessidade de existir, me parece ter se transformado em uma mania, um hábito. Insisti mais um pouco alegando tudo isso e, apesar dele parecer entender o que falo, não obtive sucesso, ao menos na prática. Mas tem algo bastante curioso que me dei conta nesta semana e que desconstruiu toda essa minha necessidade de ser amiga novamente: eu não deixei de ser. Nunca. Talvez nem por um segundo. 
O que me doía era a não presença física. Era ouvir histórias com amigos meus e com ele e que eu queria estar fazendo parte, como foi por um ano e meio ininterruptos. Era uma espécie de ciúme de gente que tinha uma importância bem reduzida à que eu tinha naquela vida continuar fazendo parte e eu não. Não poder rir junto com todo mundo da bermuda quadriculada que eu escolhi achando tá fazendo um bem para o visual e, na verdade, virar um uniforme e motivo de piada. Eu tinha saudade de ser socialmente amiga e não me dava conta de que, a coisa mais importante, continuou intacta mesmo nos momentos de caos. Eu não sei qual o bar preferido dele atualmente ou qual banda está ouvindo com mais frequencia. Não sei se ainda come semanalmente no Lamas e no Luige. Ou se comprou mais e mais e mais miniaturas de android. Se as capas das almofadas são as que escolhi na Lavradio: uma vermelha e uma listrada. E se o relógio de cubo mágico que deixei na separação de bens continua funcionando. Não sei de nada disso e isso, hoje, absolutamente não tem a menor importância. Me dei conta de que, o que de fato mede a importancia da pessoa em nossa vida, que é a confiança, afeto e respeito que temos por ela, nunca falhou ou mudou. Não sentamos mais na mesma mesa de bar, mas quando o negócio aperta, sabemos bem onde encontrar um ombro amigo. E disso não posso reclamar, sempre chegou até mim todas as informações importantes em relação a ele e todas elas vindas diretamente de sua boca ou teclado. Sem que eu precisasse perguntar. Apenas porque ele quis compartilhar. Das lamúrias, dos problemas, das doenças às conquistas. Na época em que namorávamos, ele me alertava vez por outra que a gente tava no mesmo taxi. Quando eu dava a louca, brigava ou quando parecia que disputávamos algo e que aquilo não fazia sentido algum, pois queriamos a mesma coisa, queriamos estar bem. "Estamos no mesmo taxi, não esquece". E é isso. No fim das contas, todas as pessoas que nos importam - perto ou longe - estão no mesmo taxi que o nosso. Essa frase nunca fez tanto sentido. E isso me deu um alívio enorme.

Um viva aos relacionamentos, aos laços, aos encontros e aos aprendizados. E viva também ao tempo que é sempre curandeiro e, do mesmo modo que carrega, também devolve a paz.


Oxum, dona do ouro

Pode parecer coisa pouca, mas tive um dia redondinho de conclusão de percurso e missão comprida, cumprida, "sem saber o motivo". Um dia cheio de ressaca e tão mega produtivo, com pequenas sementes plantadas pra colher, logo logo, um monte de coisa importante. Lembro que no fim do dia, ainda trabalhando, acabada de cansada mas cheia de boas intenções, pensei sorridente depois de um ocorrido: "meu santo é muito forte mesmo". E ele é. E não era por acaso, não. Hoje foi dia de Oxum. Que é minha mãe e orixá guardiã no candomblé. É quem me guia, junto com Ogum e outros comparsas, mesmo sem eu ver. Também não foi a tôa os mais de 300 giros que dei de madrugada, rodando sequencialmente nos afoxés e ijexás sem titubear, passos marcados e fortes, talvez os mais perfeitos que eu já tenha feito na vida, sem perder o eixo, mesmo com tantas cervejas na cabeça. E tudo faz sentido. Sempre faz. A gente que às vezes custa a perceber.





terça-feira, dezembro 02, 2014

Iansã e Xangô

Quando uma lembrança forte nos pega de assalto é impossível escapar ileso: era noite de natal (25) do ano passado e estávamos em uma estradinha de barro, em Vitória, a caminho da Bahia. Caía uma chuva torrencial, a estrada tava completamente alagada, enlamaçada e escura. Era impossível seguir viagem, na mesma proporção que também era impossível voltar atrás, se proteger em algum lugar seguro; não havia como voltar e nem pra onde voltar no cu de mundo em que estávamos. 

A única informação que tinhamos era de que pra frente seria ainda pior e que podia cair alguma ribanceira, como aparecia na TV, e que teriamos que subir uma ladeirinha, que seria impossivel com aquele carro de pequeno porte, etc. Estávamos muito aflitos, Lala segurava meu pé rezando qualquer coisa, enquanto eu usava minhas mãos pra tentar fotografar os raios pela janela e Gustavo disfarçava o medo no volante. 

Foi quando Lina, pra distrair nossas mentes inquietas, puxou o assunto 2014 ou dois mil e catarse. Cheia de sabedoria falava que seria um ano conturbado, um ano de acerto de contas, provações, conflitos mas também de muito amor. E que era cedo pra dar mais detalhes, acho que os astros ainda não tinham passado a régua para o que tava por vir. Respiramos fundo, atravessamos a lama, a chuva, os raios, a ladeirinha e ainda chegamos na Bahia, tão felizes. Atravessei também 2014. E as previsões não poderiam ter sido mais acertadas: um ano conturbado, cheio de conflitos, de provações, mas também de muito muito muito amor. 

E que venha 2015, pra gente atravessar sem medo de remar na maré forte e também suave que tá por vir. 

quinta-feira, novembro 27, 2014

Fissura no Cristo II ou sobre ciúme

-oi carlinhaaa, to com a tua saudaaaade, te amo!
- oi, meu amor, também to com saudaade, muita. 
- tu tás com MEU pai ai no Rio, é?
- uhum
- e ELE foi no Cristo?
- não, ele só vai no Cristo quando você tá aqui, tá?
- hmmmm. (silêncio). tenho que desligar, tchau.

minutos depois

- carlinha? 
- oi, Jó
- sofia tá chorando de dar pena, dizendo que vocês foram no Cristo sem ela.
- mas a gente não foi e eu disse que ninguém foi.
- e tu acha que ela é besta, é? ficou chateada mesmo assim.


maluco como a gente sente ciúme mesmo sem conhecer a palavra.

Fissura no Cristo I

Ambientação da história:

Eu e meu irmão mais velho conversando dentro de um carro, em Fortaleza, na presença da minha irmã mais nova.

Situação: diálogo entre nós dois sobre algo sem salvação, enquanto ela, silenciosamente, prestava atenção em tudinho. 

- Ah, menino, mas isso ai nem cristo salva mais.

Ela interrompe:

- Ô carlinha, num falem do cristo não que ele nem tá aqui, o cristo mora no Rio de Janeiro.


terça-feira, novembro 18, 2014

Além do céu, além da terra

A Pedro Escobar

Hoje me aconteceu uma coisa curiosa e vou deixar registrada aqui pra que eu lembre sempre e sempre que há muito mais coisas entre o azulzão do céu e a terra do que a gente tem condições de ver. E o sonho certamente é uma dessas coisas. 

Um tempo atrás sonhei que um amigo de meu irmão, muito pouco próximo à mim, só de vista, abria uma produtora, ficava muito bem de vida e só trabalhava de óculos escuros (das loucuras que os sonhos proporcionam). Era tipo o super boss do audiovisual e do bolso gordinho por detrás daqueles óculos escuros. Nas duas vezes em que nos encontramos ao vivo, junto ao meu irmão, essa história - única que nos lincava - foi motivo de graça e até piada. 

Hoje, ele postou cheio de orgulho sobre a inauguração de sua produtora e, quando veio me contar pois recordou do sonho, viu que a única e última conversa que tivemos inbox foi há exatamente um ano e em horário parecido: eu contando do sonho que tive com ele, da produtora, dos óculos escuros, do bolso gordo. Emudecemos. Como assim?

Sim, há mais coisas por ai do que a gente supõe. E é de óculos escuros que ele vai comemorar esse sonho - meu e dele - realizado.

segunda-feira, novembro 10, 2014

Feliz velho novo ano

O cenário da rua já é prólogo certo para o ano que tá por vir: estrelinhas de isopor, árvores de plástico, neve de algodão e números seguidos de %  nas vitrines dizendo que já passou da hora de comprar o presente do amigo secreto em Recife e oculto aqui no Rio.

Me peguei olhando uma dessas vitrines em Ipanema, hoje. Como assim JÁ é natal? Até então, pra mim, no máximo era pós eleição ou halloween. No bairro em que vivo o natal ainda não deu as caras e, dentro de mim, até então menos ainda. Fiquei uns bons instantes avaliando, defronte aquela vitrine, como eu ainda tava correndo atrás de 2014 enquanto todo mundo só quer saber do ano que vai chegar, nas vitrines, no cenário da rua e provavel que internamente. Meus amigos estarão todos viajando, em Recife, por ai. Eu não. Eu nem sei. E nem tenho como me preocupar com isso agora. Enquanto todo mundo tá aprontando as malas pra ir para a região dos lagos no recesso do trabalho, pois não aguenta mais o chefe e almeja uma folguinha dele por esses tempos, eu acabei de conhecer minha futura chefe. Minha mala é meu armário organizado aqui no Rio de Janeiro e minha passagem diária é pra perto e no RioCard mesmo. Mas confesso que depois que vi aquelas vitrines, me forcei ao espírito de fim de ano, uma melancolia, esperança ou até mesmo ilusão de que tudo vai mudar, de que tudo vai ser melhor. E vi que estava mais dentro da realidade impossivel, como nunca estive antes. E agradeci por isso, mesmo que tardiamente, pois foi o que esperei do ano, o ano inteiro. 

Fiquei confusa se meu ano (re)começou agora, levando comigo tudo de bom que 2014 me trouxe ou se o meu próximo ano chegou antes do de todo mundo. Talvez seja melhor pensar na segunda opção e sortear logo esse amigo oculto afinal, é pra frente que se anda.