sexta-feira, abril 03, 2015

bem aqui em mim

olhei prum lado, olhei para o outro, olhei pra você, olhei pra dentro: eu nunca poderia não estar com você.

terça-feira, março 31, 2015

No lugar

Arrumar em miudezas meu quarto me dá sempre a impressão de tá arrumando também a vida. Como se a cada parte do cômodo eu colocasse no lugar uma ideia antes vaga, mesmo que, na prática, tudo isso não passe de gavetas, caixas, pedaços de chão e de móveis. E de muitas fotografias.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Das incongruências nos relacionamentos

Quando o namoro é recente, novinho em folha, com gosto de mistério e paixão a flor da pele, a gente quer se convencer - e pior - convencer ao mundo que apesar de verde ele já é todo maduro, é algo que merece a fé e o respeito de um relacionamento antigo. Sentimos necessidade de antecipar coisas, situações e, avalie, até declarações. O pouco tempo é lembrado, exposto e reafirmado como uma longa trajetória.
Quando o caso é o oposto: um relacionamento antigo, de anos, concreto, cheio de falhas ja decretadas e companheirismos abraçados, um amor talvez seguro (isso existe?), humano e maduro, passamos a sentir necessidade do contrário: convencer a gente - e o pior - a todo o mundo, que apesar de antigo ele é novinho em folha, começou agora, tá cheio de gás e pronto pra mais uma nova etapa. Que o tempo voou.
E quem é que entende a gente?

terça-feira, fevereiro 24, 2015

É tudo tão não concreto

Por muito tempo vivi uma vida bitolada. Não nas cores das roupas ou nas danças ou nos gostos, mas no pensamento - o que torna tudo mais grave. Não sei se por uma criação militar ou se por um senso de justiça que sempre me acompanhou desde pequena, mas o cinza não fazia parte da minha paleta de cor. Era preto ou era branco. Era tudo definitivo demais. E foi assim até quase agora. Os parênteses não entravam na minha cota, as nuanças só serviam na poesia. Na vida real era tudo concreto: as amizades eram para sempre. Os amores eram para sempre. As derrotas eram definitivas, sem chances de retorno. Podia-se, no máximo, renascer em um outro formato, mas uma vez derrotado nunca voltaria pelo mesmo corpo. As vitórias pareciam também eternas. 

Ai me pergunto: por onde andei durante todo esse tempo em que acreditei piamente que qualquer ação, na prática, era definitiva? Pior, como consegui viver por tantos anos assim sem perceber que tava errado ou no mínimo esquisito? Quantas coisas devo ter perdido ou ganhado na marra com esse pensamento? É doido pensar isso, mas talvez tenha sido meu pior defeito. Engraçado é que o start pra essa questão surgiu durante esse carnaval e, em tão pouquinhos dias, todas as minhas regras de tantos anos foram quebradas ladeira pós ladeira. E em uma semana eu não me vi mais na outra Carlinha que pegou o avião no Galeão, quase perdendo o voo por conta de um transito infeliz. Que bom que não perdi o voo. Talvez mais por essa questão toda do que pelo próprio frevo. 

Gente que não existia mais pra mim "em definitivo" e que foi reencontrada como se nunca tivesse saído dali. Gente que nunca parecia que sairia dali e saiu de mansinho, sambando miudinho. Gente que saiu "pra sempre" e que achei que "pra sempre" doeria. E nem doeu. Fez nem cosquinha, tão esquisito. Gente que tava muito mais linda do que parecia possivel ser. Gente que conheço desde sempre e que a cada carnaval tem um brilho mais forte no olhar. Gente que consegue, de algum modo, chegar ainda mais junto do que conseguiu durante todos esses anos. Gente que não era alheia e se tornou. Gente que era esquisita e se ajeitou. Um carnaval que sempre foi o melhor do mundo e esse ano se tornou algo além disso. Não só pelas ladeiras. Ou pelos metais. Ou pelas purpurinas, mas por todo o entorno e, principalmente, por tudo aqui dentro, mansinho, caminhando, observando, aprendendo e se avaliando, entre um axé e um abraço apertado.

Tomar consciência de que nada nessa vida é definitivo - para o bem ou para o mal - faz com que as possibilidades mundanas se tornem mais suaves, menos dolorosas ou carregadas de culpa. E assim, de algum modo, os caminhos se mostram mais abertos. E tudo parece diferente mesmo estando igualzinho, só por uma questão de consciência. 

É já que é tudo tão não concreto que tal, então, deixar em aberto?

domingo, fevereiro 08, 2015

Vontade de sei lá

Agora, sentada na minha cama, vejo meus pés encostados na pilha de roupas que separei pra levar pra Recife. Ao redor dessa cena, um quarto bagunçado em razão desta missão. Maquiagens, purpurinas, portas do armário abertas. Estou cansada. Passei o dia inteiro descansando e permaneço sentada na cama criando coragem pra finalizar a arrumação. Uma arrumação prazerosa se eu não me lembrasse da semana que vem pela frente, que graças a Deus termina na quarta-feira, mas que irremediavelmente precisarei encarar até que esse dia chegue.

Ai bate um banzo. Uma vontade de sei lá o quê. Sentada na minha cama, tenho preguiça de ir no quarto ao lado buscar a mochila. Queria que tivesse tudo pronto. Queria mesmo era dormir até quarta-feira e acordar no Aeroporto Internacional dos Guararapes com a voz sensual da moça informando que a tripulação tem que se preparar para o pouso. Uma das frases que mais me emocionam na vida quando estou indo (e nunca voltando), seja lá pra onde for. Ou mesmo dentro do avião, tremendo de ansiedade naquelas 2h45 que demoram uma vida e meia pra passar, mas que vale cada minuto depois.

Sentada na minha cama eu penso em tudo isso e lembro da música do Paulinho. E coloco ela só porque sei que me dá vontade de chorar. Ou de ficar numa preguiça maior do que a que ja me encontro. Essa música é tão bonita, meu deus do céu. Penso em emendar com Frevo número 1 de Betânia mas ai já acho que é demais. Se fizer isso, meu quarto vai permanecer bagunçado e eu vou permanecer aqui. Procurando mais motivos para não me mover até que chegue quarta-feira. To melancolica e to feliz, tão esquisito isso. 

" A razão porque mando um sorriso e não corro\ É que andei levando a vida quase morto\ Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue\ E sepultar bem longe o que restou na camisa colorida que cobria a minha dor".  isso é tão bonito, meu deus. Como não ter vontade de chorar? Que saudade. To numa saudade medonha mas nem sei direito de quê.

Sentada na minha cama - é preciso levantar - é só o que penso agora. Até que chegue a quarta-feira, "tão logo a noite acabe, tão logo este tempo passe, para beijar você..."

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Entre gatos, periquitos, plantei minha alegria

Aconteceu tanta coisa ao mesmo tempo nessa última semana que nem consegui me despedir como gostaria e sofrer um último tchau decente na Tijuquinha que tão bem me acolheu no último ano. Ao contrário disso, sai batida de lá cheia de sono pela manhã, em minha última manhã na Valparaiso. Tive 10 segundos enquanto percorria aquela rua tão agradável pra agradecer e dizer tchau, quase que no automático. E só agora, após essa semana frenética e infinita, que sento no meu sofá e faço uma retrospectiva - e não mais naquele big sofá incrivel e preto que me abraçava toda santa noite de domingo!

Quanto drama da minha parte, eu sei. Jaja estarei novamente esparramada no big sofá preto, em outro endereço, mais perto de mim. E enquanto isso não acontece, disfarço o charme que acho ser a entradinha da vila e a empolgação com a área externa pra eventinhos e reuniões de amigos. Disfarço também a facilidade que será chegar lá de bike ou até mesmo a pé, se der na telha. Disfarço essas coisas porque agora eu to sentindo pela Tijuquinha tão querida. To sentindo por não poder mais perambular pela casa de calcinha e só. Ou sem nada. E deitar no sofá nuinha. E não ter mais o Jorge feliz da vida ao me ver, sabe-se lá por qual motivo, nas tantas e tantas manhãs apressadas atravessando aquela portaria, com aquele banco e aquela parede de azulejos tão bonita. E não ter mais Brad e nem Pitt esparramados no chão e sendo acolhidos por todos que por ali passam. E nem mais o Vera Lanches nas madrugadas sem fim. (Sobre isso, não consido disfarçar a alegria em trocar esse podrão, mesmo sendo o melhor podrão do Rio, pela melhor padaria da madrugada e que fica a 3 minutos a pé da nova casinha!). O Botto não será mais um caminho feito caminhando. E o sushi da feira não acompanhará os domingos de ressaca com a mesma facilidade. 

O Largo da segunda-feira com certeza vai deixar muitas saudades acompanhadas de muitas e muitas histórias - boas e ruins, como em qualquer lugar. Mas não sei se pela dor devastadora em minha coluna ou se pela correria dos últimos dias ou se pela esperança de um futuro ainda mais gostoso, não consigo sofrer de verdade essa "perda". Dou uma remoída, tenho umas recaídas, mas não sofro e nem consigo, pelo contrário, semeio e vejo coisas boas chegando junto com a mudança. E, já que mudança é sempre uma boa desculpa pra comemorar, me coloco a postos e já imagino o vinil novo do Clube da Esquina rodando no quintal, enquanto o sonho de ter roupas quaradas se realiza e a cervejinha artesanal, caseira e gelada, enche os copos dos amigos pra um brinde ao novo lar!

terça-feira, janeiro 27, 2015

Um sábado pra não esquecer

Existem algumas maneiras de iniciar esse texto. Enumerar as figuras encontradas neste dia, num raio tão curto de distância, seria uma delas. Mas seria a mais óbvia, a mais quadrada. Então não incluirei todos os personagens pra que esse post não vire um livro, pois foram muitos.

Vou começar, então, do começo. No começo bem feto quando esse dia nem ia existir pra mim, pelo menos não do jeito que foi. E bastou uma decisão pra tudo mudar. Eu estaria em casa, provavelmente vendo um bom filme, curtindo o ar-condicionado e respeitando minha conta bancária magra, mas não foi assim que ocorreu e, por conta disso, lá estava eu e a galera no Coelho, tomando uma caipivodca que nem tava das melhores, olhando para todos os lados em busca de Anne. Loura de cabelos cacheados era a referência que eu tinha, afinal, fazia nove anos que não nos víamos. A irmã da minha irmã. Ela era tão criança, era gordinha e com rosto rosado. E ria do meu inglês fudido enquanto velejávamos num pedaço de oceano distante dentro do Canadá. Quando ela finalmente chegou e a vi, tive que conter as lágrimas: seria muito deselegante chorar em sua frente mas não por causa dela em sí, mas pela emoção a qual fui tomada em ver como ela se tornou uma mulher tão semelhante fisicamente à minha nossa irmã Samantha. A abracei como se abraçasse um pedaço de Sam e de fato era mesmo. Desatei a gastar sua lingua natal, enquanto ela desatava a falar também. Deu certo, nos divertimos e recordamos do dia em que confundi sobremesa com deserto e isso deu o maior rolo! E também da vez em que vi uma foca pela primeira vez na vida (talvez a única), no alto mar e comecei a imitá-la ridiculamente pra dizer que a vi, ja que não sabia como era a palavra. E também quando catávamos todas as berries do quintal e das florestas. 

É quando na pausa entre nossas lembranças, surge o primeiro elemento masculino da trama: meu ex, dessa vez sem ser on-line como de costume. Dessa vez sem bermuda quadriculada e todo contente, dizendo com ar de quem foi o único a conhecer Sam, que Anne era tão, tão igual a ela. "Mesmo sorriso e mesmo brilho nos olhos que são muito azuis." O único naquela roda que teria propriedade pra falar isso. Bruno, enciumou discretamente e perguntou onde escondi ela no periodo em que veio ao Brasil. De costas, escuto uma voz e identifico o segundo elemento da roda e da noite: meu quase ex namorado.  Em segundos um abraço sem graça e afastado, como sempre é desde a época em que ele decidiu me odiar, como se isso fosse mudar o que eu sou ou o que ele é. Pensei que, meu namorado, meu ex e meu quase ex na mesma roda de amigos era sinal de que ou ia dar merda ou ia ser, no mínimo, interessante. No fim foi mais que isso, foi massa. Fiquei tão feliz que bebi outro Coelho. No show, um puxava assunto, outro fazia uma brincadeira ou queria interagir. O abraço sem graça se tranformou em um cutucão em fração de poucas horas pra contar alguma coisa. Éramos, todos, mais que ex qualquer coisa. E Gustavo era mais que o atual namorado administrando uma situação que poderia ser chata. Fomos mais que pessoas civilizadas compartilhando da mesma alegria. Havia no ar a sensação de que todos se reconheceram ali, se relembraram ao vivo. E que um monte de coisa menor ficou menor ainda diante de todos os sorrisos. De todas aquelas danças e cantorias, diante de tantos amigos em comum saboreando de todas as presenças ao mesmo tempo, sem facções.

Ao menos naquela noite de sábado.